As trevas da razão


Existe uma tensão que o homem moderno enfrenta. Uma que possui consequências imediatas na compreensão da realidade e, consequentemente, da sua própria biografia. É a tensão entre os reinos da quantidade e da qualidade, filosoficamente entendidos. A cosmovisão moderna, pós-cartesiana, é tecno-quantitativa. Tudo é quantidade. O homem? Um amontoado de átomos. As relações humanas? Apenas reações químicas quantificáveis. E assim por diante. A realidade perde qualidade e valor objetivo e ganha quantidade e valor subjetivo.

A estrutura da realidade, porém, está ordenada de tal forma que a quantidade é apenas uma das categorias – no sentido aristotélico – de sua composição. E não é a primeira e, no sentido humano, nem de longe a mais importante. Ao contrário. O real acontece primariamente no reino metafísico e não quantificável. No que é substancial. Embora, quase sempre, a quantidade esteja presente.

Em geral, a arte, essa “mimesis”, precisamente por ser assim, desnuda o real. A obra, a boa obra, apresenta a realidade em uma representação integral dela. Mesmo sendo apenas uma representação, uma superfície do real. Diferente do que acontece quando há a redução do real à categoria da quantidade. Com a sua obra, a superfície, o artista nos guia para as profundezas. Ele nos pergunta: “Você está vendo o que eu estou vendo?” Assim, podemos concluir que há mais realidade em uma obra de arte, uma boa obra de arte, de Homero, de Dante, de Camões, do que em qualquer teoria científica moderna.

O homem, não há como escapar, talvez excetuando casos de patologia, percebe o mundo de forma qualitativa. Com valoração. Entretanto, somos ensinados desde a tenra idade a olhar o mundo de forma quantitativa. Eis ai a tensão. É a tensão entre a experiência real mais imediata e as estruturas – ensinadas e quantitativas – de pensamento existentes no interior do homem. O resultado, é claro, não poderia ser outro. Confusão mental. As trevas da razão. O homem que resolve essa tensão terá de, inevitavelmente, resolver uma outra. A solidão.

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